As lembranças de
Minas
Teddy Williams
Seria a sua última viagem, por esse mês.
Tudo o que tinha planejado, desde a primeira vez dera certo. Trabalhara
bastante, exaustivamente. Poderia pagar suas dívidas e agora era descansar um
pouco.
No aeroporto, como de costume, sempre
revisava as duas malas antes de embarcar: uma com fita branca na borda seria a
sua de mão e a outra, com fita azul, seria a que despacharia.
Resolveu sentar-se para ainda apreciar a
vista panorâmica no salão de embarque. Ao longe, avistou uma loja e lembrou-se
do queijo de Minas que prometera a sua mãe - a correria foi tanta que quase o ia
esquecendo. Levantou-se e dirigiu-se ao balcão, onde foi atendido por uma
senhora com lindo sorriso.
- Pois não, poço ajudá-lo?
- Claro! Preciso de uma peça de queijo
do Serro, redondo e pesando aproximadamente um quilo – não queria ter excesso
na bagagem.
Ela lhe mostrou o queijo. Ele confirmou
e disse:
- É para presente, por favor! Lembranças
para minha mãe.
Recebeu-o bem embrulhado em papel bonito.
Pagou, agradeceu e saiu!
Lembrou-se que o embrulho do queijo fora
feito em um papel parecido com o das encomendas que já trazia em sua bagagem de
mão.
Cuidadosamente guardou-o e foi esperar o
chamado para o embarque.
Logo que autorizaram, ele dirigiu-se a
fila, que não era grande. Fazia dezoito dias que estava distante da esposa e
muitos meses sem ver os pais, a saudade era grande.
A esposa, jovem e também independente,
já tinha decidido que do aeroporto mesmo embarcariam para sua primeira semana
de viagem a Maceió, somente os dois. Esperavam por ele no aeroporto, ela, seu irmão
e sua mãe, que a levaram para o embarque junto com as suas cinco malas cor de
rosa e os pais dele, sentados um pouco distantes, que foram em carro próprio,
desejar boa viagem ao filho.
Aline, a esposa, era apaixonada por
todos os doces que ele lhe trazia das viagens: geléias de pimenta, doce de
leite, balas de caramelo, mamão com coco, amoras, figo e especialmente o que
ele estava levando, mesclado de chocolate com leite, da região de Araxá em
Minas Gerais, “uma dilííícia”, era o que sempre ela dizia.
A mãe, a quem ele fazia mais agrados do
que a esposa, nascida em Minas, fazia tempo que não ia a sua cidade natal. Recomendara-lhe
queijo para matar desejos e recordações, caso ele passasse pelo aeroporto daquele
estado. Também trazia lembranças para os sogros. Estava levando geléia de mocotó
e garrafinhas de cachaça, escolha da própria sogra, que desejava fazer uma
surpresa ao marido, marinheiro de muitas viagens.
A tranqüilidade do voo fez com que ele
sonhasse em um dia ter reunidos em uma mesma viagem, seus pais, sua esposa e
seus sogros. Algo que não vinha sendo fácil nos últimos meses.
O piloto informa da proximidade à
Fortaleza: clima bom, temperatura agradável e obrigado por escolherem a nossa
companhia!
O avião aterrizou. Bagagem na mão, agora
é rever a família e viajar novamente. Uma loucura, mas para não desagradar a
esposa, já que as férias não coincidiram, concordou em terem esses sete
maravilhosos dias juntos, ele pensou sorrido.
Com suas malas dentro do carrinho saiu
para o reencontro de todos.
A alegria foi imensa. Os pais choravam,
pois já não viam o filho há mais de quatro meses, por causa das viagens. A
sogra também em lágrimas, pois sua filha começou a chorar, já sentindo imensas
saudades da família, da qual nunca se separara, mesmo após o casamento, pois a
lua de mel foi na própria cidade.
Depois de alguns abraços, beijos e
notícias de Minas e do Rio entregou os presentes que trouxera. Observou que
todos eram em sacolas quase parecidas. Cansado, não quis se certificar dos
presentes que estava distribuindo. A sogra pegou o seu e consolando a filha
guardou-o sem olhar seu conteúdo. Os pais, desejando boa viagem ao casal e
lembrando que eles ainda precisavam fazer o check in, também guardaram o que
receberam com sorrisos e agradecimentos. Para a esposa, disse que o entregaria
na segunda lua de mel.
Check in feito, agora rumo à sala de
embarque. Passaram pelo raio x e o vôo já estava liberado.
Ela, feliz pela viagem que estava fazendo,
só queria chegar logo para poder aproveitar a companhia do marido. Ele,
cansado, também feliz pela primeira viagem fora do estado com a esposa,
precisava dormir um pouco melhor, depois de tantos dias trabalhando.
No hotel cinco estrelas, tudo escolhido
por ela, depois de três horas de viagem, adormeceram. Amanheceram felizes. Beijos!
Abraços! Bom dia! Ela logo desejou ver o presente que ele lhe trouxera.
Ele, ainda sonolento, diz-lhe com
carinho para que ela o pegasse na mala da fita branca. Ela o encontra. Abre e logo
começa a chorar, reclamando do cheiro desagradável do presente. Ele viu que eram
os presentes recomendados pela sogra.
Segundos depois, no seu celular, sua mãe
pede notícias da viagem e agradece pelo maravilhoso mesclado de Araxá que recebera.
Uma delícia, disse ela, delícia!
No outro canto da cama, ao celular, ela,
a esposa, continua chorando e reclamando do cheiro do doce que dessa vez ele
lhe trouxera: “parecia cheiro de carne de boi” - e a mãe, sem ouvir a filha
reclamava do presente que o genro lhe dera dessa vez: “um quilo de queijo
branco e ainda mais sem sal, um horror!”.
Ele voltou a dormir e sonhou em como
seria bom se todos estivessem juntos e ele pudesse trocar os presentes, experimentar
um pouco de cada lembrança que trouxera e contar sobre suas viagens. Nada mais,
além disso.
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