terça-feira, 17 de abril de 2012



“O Lobo” de Clarice Lispector

"...Pois logo a mim, tão cheia de garras e sonhos,
coubera arrancar de seu coração a flecha farpada.
De chofre explicava-se para que eu nascera com mão dura,
que eu nascera sem nojo da dor.
- Para que te servem essas unhas longas?
- Para te arranhar de morte e para arrancar os teus espinhos mortais,
responde o lobo do homem.
- Para que te serve essa cruel boca de fome?
- Para te morder e para soprar a fim de que eu não te doa demais, meu amor,
já que tenho que te doer, eu sou o lobo inevitável pois a vida me foi dada.
- Para que te servem essas mãos que ardem e prendem
- Para ficarmos de mãos dadas, pois preciso tanto, tanto, tanto

Uivaram os lobos e olharam intimidados as próprias garras
antes de se aconchegarem um no outro para amar e dormir

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