A Viagem e o
Vestido
Teddy Williams
O vôo já estava confirmado. Quase 01h da
manhã de uma sexta-feira e eles ali no saguão do aeroporto: um corpo
aparentando tristeza, calado e os olhos escondidos por traz de uns óculos
escuros. O que contrastava com a aparente tristeza era o lindo vestido que ele
não se lembrava de ter dado a ela de presente. O sorriso estampado em seu rosto.
Vestia camisa manga comprida listrada, calça social azul, sapatos marrons,
combinando com o cinto. Era tanta alegria que ficava cego para os sentimentos
da esposa.
Ela soube da
viagem dele, por acaso, quando foi pagar as contas e encontrou um bilhete
dobrado. Estavam lá: três parcelas de duzentos e cinquenta reais. Passagem
aérea para São Paulo. Não perguntou nada. Apenas esperou. Poderia ser um presente
para ela... Seria bom viajar, conhecer outros lugares. Pessoas bonitas, praias,
comidas diferentes. Ajudaria na relação. Cinco anos passaram rápidos desde a
última viagem para fora do estado, como presente de casamento. Foi tão maravilhoso!
Ele queria fazer
uma surpresa para a mãe. Comprou as passagens e iria visitá-la, sozinho. Pensou
que contando a esposa ela estragaria tudo, pois ligaria, daria um jeito para
conversarem, mesmo que fosse para não dizer nada e a sogra saberia tirar dela
tudo o que estava acontecendo. “Ela é tão ingênua – falava ele sempre quando se
referia à esposa”. Ele, já com seus 35 anos e ela com 23, tinha a certeza da aprovação
do seu casamento por parte da mãe, mas sempre perguntava se tinha sido uma boa
escolha. Sempre encontrava as duas conversando, quase escondidas, mas
conversavam e muito. Às vezes encontrava a esposa a chorar, mas não seria nada,
sabia que a mãe a tratava como filha. Quando perguntava o que faziam as duas, elas
nunca revelavam e ele sabia que era carinho de mãe. Ela ligava quase toda hora,
mais para saber da nora do que do filho. Ele admirava aquela relação.
Outra chamada
para o voo 171. Eles se abraçaram fortemente.
- Não chore minha querida, volto em
quatro dias, só o tempo de assinar os documentos, passar tudo para eles e
viajar de volta. Não se esqueça de pegar o taxi do aeroporto. Cuidado com os
taxis piratas. Eu ligo quando chegar. Beijos!
- Tudo bem. Tomarei cuidado. Sempre
tomo! Faça ótima viagem e resolva tudo! - ela o beijou e ele correu para o setor
de embarque.
Ele desapareceu entre os agentes da
Infraero e os outros passageiros e ela foi se afastando, lentamente, com o
coração acelerado, pegar seu taxi. Bem distante dos taxis oficiais, falava ao
telefone informando que já estava saindo do aeroporto e chegaria em 20 minutos.
Assim foram: ar ligado, música suave e baixa, para uma rua em sentido oposto ao
de seu apartamento.
O marido era o filho mais paparicado
pela mãe, de todos os cinco. Único do segundo casamento, e o que melhor
conseguiu se posicionar na vida, pois os outros nada fazem, a não ser gastar o
dinheiro dos pais. Quando menor, nem brincava com outras crianças, se a mãe não
estivesse por perto. Na juventude ela lhe regulava os passos: escolhia as
namoradas, os amigos e proibia festas. Já trabalhando, adulto, independente,
disse à mãe que iria casar. Foi a primeira briga com ela. Disse que não
aceitava, ainda era novo, tudo isso pressionada pelos filhos, sempre
interessados em seu dinheiro.
Conheceu a futura esposa do filho e logo
se tornaram inimigas silenciosas. Era linda! Tranquila, inteligente e cheia de
vida. Não daria certo, ela o manipularia, pensou. Fez de tudo para evitar o
casamento. Agora faz de tudo para acabá-lo, silenciosamente. Se não fosse o
gênio forte da nora, que por várias vezes disse ao marido as intenções de sua
mãe, mesmo ele não acreditando, já estariam separados.
Várias vezes sua mãe liga, fazendo
propostas para a separação. A esposa chorava nos primeiros anos, depois passou
a deixar o telefone ligado e a sogra falando sozinha. Chorando necessidades
para os filhos - todos maiores de idade e bem de saúde.
Todas às vezes que a esposa falava das
conversas com a mãe, que não aceitava o casamento deles, o marido dizia que era
implicância dela. Ela não entendia o sofrimento da mãe, para criar os coitados
dos irmãos... – você é muito nova ainda, ele sempre dizia. Ela passou a se
calar. Apenas sorria um sorriso distante.
O carro estacionou em frente a uma casa
simples, em uma rua calma. O silêncio era quebrado apenas por cachorros
latindo. No portão, ao lado de fora, um rapaz com seus 27 anos aproximadamente,
com o peito nu, short, sandálias havaianas e sorrisos, esperava. Ela pagou a corrida.
Desceu do carro saltando nos braços dele. Sem os óculos escuros. Com sorriso
nos lábios e transformada em outra mulher.
- Como você está linda nesse vestido, já
estou excitado para rever o que tem dentro.
- Também gostei muito do presente que
você me deu. Quando me vi no espelho, só imaginei você me despindo, é tudo o
que desejo.
- Entre! Seja bem vinda, tem um vinho e
uma cama esperando por você.
E foram para outra viagem.
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