quarta-feira, 18 de abril de 2012



A Viagem e o Vestido
Teddy Williams

O vôo já estava confirmado. Quase 01h da manhã de uma sexta-feira e eles ali no saguão do aeroporto: um corpo aparentando tristeza, calado e os olhos escondidos por traz de uns óculos escuros. O que contrastava com a aparente tristeza era o lindo vestido que ele não se lembrava de ter dado a ela de presente. O sorriso estampado em seu rosto. Vestia camisa manga comprida listrada, calça social azul, sapatos marrons, combinando com o cinto. Era tanta alegria que ficava cego para os sentimentos da esposa.

Ela soube da viagem dele, por acaso, quando foi pagar as contas e encontrou um bilhete dobrado. Estavam lá: três parcelas de duzentos e cinquenta reais. Passagem aérea para São Paulo. Não perguntou nada. Apenas esperou. Poderia ser um presente para ela... Seria bom viajar, conhecer outros lugares. Pessoas bonitas, praias, comidas diferentes. Ajudaria na relação. Cinco anos passaram rápidos desde a última viagem para fora do estado, como presente de casamento. Foi tão maravilhoso!

Ele queria fazer uma surpresa para a mãe. Comprou as passagens e iria visitá-la, sozinho. Pensou que contando a esposa ela estragaria tudo, pois ligaria, daria um jeito para conversarem, mesmo que fosse para não dizer nada e a sogra saberia tirar dela tudo o que estava acontecendo. “Ela é tão ingênua – falava ele sempre quando se referia à esposa”. Ele, já com seus 35 anos e ela com 23, tinha a certeza da aprovação do seu casamento por parte da mãe, mas sempre perguntava se tinha sido uma boa escolha. Sempre encontrava as duas conversando, quase escondidas, mas conversavam e muito. Às vezes encontrava a esposa a chorar, mas não seria nada, sabia que a mãe a tratava como filha. Quando perguntava o que faziam as duas, elas nunca revelavam e ele sabia que era carinho de mãe. Ela ligava quase toda hora, mais para saber da nora do que do filho. Ele admirava aquela relação.

Outra chamada para o voo 171. Eles se abraçaram fortemente.

- Não chore minha querida, volto em quatro dias, só o tempo de assinar os documentos, passar tudo para eles e viajar de volta. Não se esqueça de pegar o taxi do aeroporto. Cuidado com os taxis piratas. Eu ligo quando chegar. Beijos!
- Tudo bem. Tomarei cuidado. Sempre tomo! Faça ótima viagem e resolva tudo! - ela o beijou e ele correu para o setor de embarque.

Ele desapareceu entre os agentes da Infraero e os outros passageiros e ela foi se afastando, lentamente, com o coração acelerado, pegar seu taxi. Bem distante dos taxis oficiais, falava ao telefone informando que já estava saindo do aeroporto e chegaria em 20 minutos. Assim foram: ar ligado, música suave e baixa, para uma rua em sentido oposto ao de seu apartamento.

O marido era o filho mais paparicado pela mãe, de todos os cinco. Único do segundo casamento, e o que melhor conseguiu se posicionar na vida, pois os outros nada fazem, a não ser gastar o dinheiro dos pais. Quando menor, nem brincava com outras crianças, se a mãe não estivesse por perto. Na juventude ela lhe regulava os passos: escolhia as namoradas, os amigos e proibia festas. Já trabalhando, adulto, independente, disse à mãe que iria casar. Foi a primeira briga com ela. Disse que não aceitava, ainda era novo, tudo isso pressionada pelos filhos, sempre interessados em seu dinheiro.

Conheceu a futura esposa do filho e logo se tornaram inimigas silenciosas. Era linda! Tranquila, inteligente e cheia de vida. Não daria certo, ela o manipularia, pensou. Fez de tudo para evitar o casamento. Agora faz de tudo para acabá-lo, silenciosamente. Se não fosse o gênio forte da nora, que por várias vezes disse ao marido as intenções de sua mãe, mesmo ele não acreditando, já estariam separados.

Várias vezes sua mãe liga, fazendo propostas para a separação. A esposa chorava nos primeiros anos, depois passou a deixar o telefone ligado e a sogra falando sozinha. Chorando necessidades para os filhos - todos maiores de idade e bem de saúde.

Todas às vezes que a esposa falava das conversas com a mãe, que não aceitava o casamento deles, o marido dizia que era implicância dela. Ela não entendia o sofrimento da mãe, para criar os coitados dos irmãos... – você é muito nova ainda, ele sempre dizia. Ela passou a se calar. Apenas sorria um sorriso distante.

O carro estacionou em frente a uma casa simples, em uma rua calma. O silêncio era quebrado apenas por cachorros latindo. No portão, ao lado de fora, um rapaz com seus 27 anos aproximadamente, com o peito nu, short, sandálias havaianas e sorrisos, esperava. Ela pagou a corrida. Desceu do carro saltando nos braços dele. Sem os óculos escuros. Com sorriso nos lábios e transformada em outra mulher.

- Como você está linda nesse vestido, já estou excitado para rever o que tem dentro.
- Também gostei muito do presente que você me deu. Quando me vi no espelho, só imaginei você me despindo, é tudo o que desejo.
- Entre! Seja bem vinda, tem um vinho e uma cama esperando por você.

E foram para outra viagem.

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