A Última Chamada
Teddy Williams
Estava assim: cansado e ansioso. Uma
nova jornada se iniciava.
Passara toda a manhã organizando sua
primeira viagem do ano e essa seria para fora do estado. Na realidade já a
estava organizando fazia 28 dias.
A manhã e a tarde foram corridos: aulas,
reuniões, livros, discos, dvds e o carro do irmão que o deixara no aeroporto,
já no fim da noite. Lá estava ele, antes de embarcar, bem depois do demorado
chek in, morto de cansaço, uma hora adiantado no setor de embarque. No raio x passou
o casaco, a aliança, a pulseira, sua mochila(com notebook, celulares e dvds),
moedas e o inseparável violão.
Tudo em ordem! Pode passar, obrigado e
boa viagem! - foi o que disseram.
Sentou-se, teria que esperar um pouco
ainda antes do vôo ser anunciado. Estava marcado para as 22h. Antes das 01h da
manhã já estaria em seu destino, no sul do país. Observou ao redor onde muitos
também esperavam: uma criança sorria lindamente, um casal conversava, um bebê
era alimentado por sua mãe, assistida por uma senhora, talvez a avó. Ao seu
lado direito, olhou lenta e demoradamente, linda jovem com o notebook aberto em
uma página sobre clima, estranhou, sabia que o tempo nesses dias estava bom em
todo o Brasil. Sentiu seu perfume pelo ar e fechou os olhos por instantes. Em seguida,
observou outro canto do salão de embarque, um grupo uniformizado conversava distraído
fazendo barulho sobre o jogo da tarde.
Quando chamaram para o vôo quase todos
se levantaram ao mesmo tempo, ele e ela resolveram continuar sentados – a fila
ainda continuaria antes de entrarem no avião pensou consigo mesmo e fechou os
olhos, sentindo novamente o perfume dela e adormecendo. Acordou assustado, coração
acelerado, seu nome era chamado nos alto-falantes. Levantou-se e correu. Na
correria do embarque havia esquecido o violão ao lado da cadeira na qual
sentara. Imaginem vocês, um violão - sua mãe um dia disse: “não esquece a
cabeça porque está em cima do corpo” e o violão bem ali a sua frente, fora do
seu campo de visão, é claro, um erro em aeroportos. Voltou, sorriu e o pegou.
Há tempos estavam juntos. Ambos se faziam companhia por essas viagens
solitárias, às vezes. Chegou com o coração na boca próximo a porta de entrada
do avião.
A sorridente aeromoça estava lhe esperando
(na realidade todos estavam) e no ar o mesmo leve cheiro do perfume lhe voltou
à memória. Ela lhe sorriu. Deu as boas vindas e desejou boa viagem. Ele
continuou tentando encontrar aquela que vira ao seu lado, no salão de embarque,
nas poltronas por onde passava. Mas não conseguiu.
Nos aeroportos dizem sempre que é a
“última chamada”, chega a chatear: não quer entrar ou não pode, vai no próximo!
Mas já deveriam o estar chamando fazia alguns minutos. Todos os olhares dos passageiros
sentados lhe eram direcionados, quase em silêncio. Uma criança chorava
compulsivamente. Ele sorriu para a criança, passando-lhe a mão por sobre os
cabelos e ela foi silenciando, parando pouco a pouco – coincidência, ele pensou,
feliz coincidência, pois o choro da criança o havia assustado logo na entrada
em meio ao quase silêncio geral, ele agradeceu em uma prece.
Foi procurando a sua poltrona e logo a
encontrou. Dois lugares vagos, 26d e 26e, as únicas poltronas vagas, de duas
filas triplas e a sua era a “d”, no corredor. Sentou-se e sentiu-se mais calmo,
assustara-se também com o ocorrido, ter dormido minutos antes de viajar. Para
ele perder esse vôo seria desastroso. Acreditava que todo o seu trabalho
estaria ligado àquela viagem, pensou como sempre pensava: o trabalho mais
importante de todo o resto da vida.
Cintos apertados! Poltronas na posição
vertical! O piloto dá as boas vindas, informando do fechamento das portas. Avião
taxiando, informações de emergência e as luzes que não deixam a gente dormir. Lá
iam todos! Força! Força! Pensava com os braços presos junto à cadeira. Pés
firmes no chão, olhos cerrados e a sensação de estar subindo. Nesse instante os
olhos pesaram, pesaram e se fecharam. Acordou com o comandante informando sobre
o bom tempo na região e da hora que chegariam ao destino, às 00:37minutos. O
lanche estava sendo servido. Observou na poltrona 26e, ao seu lado direito, a mesma
linda jovem que estava com o notebook aberto no salão do aeroporto, havia
pensado que era o último a ter entrado – talvez ela devesse ter ido ao banheiro,
porém não a sentiu passando por seu lado para sentar-se. Teria ele levantado
ainda dormindo? Ela sorriu, olhou para a janela vizinha e disse, com um timbre
de voz quase recentemente escutada, tentou lembrar onde, ouvindo as palavras da
sorridente vizinha:
- Uma grande tempestade está se
aproximando, será uma dura experiência em nossas vidas, mas não tenha medo,
tudo dará certo!
Observou seus olhos, sua pele, seus
lábios. Seria uma boa oportunidade para conversarem e foi ela quem iniciou
pensou dirigindo-se baixinho para falar-lhe:
- O piloto não havia falado em tempo bom
em todo o percurso e vôo tranqüilo????... ficou sem respostas... Ela estava com
um livro aberto “A Menina que Roubava Livros”, o corpo profundamente imerso na
leitura. Sorriu sem jeito e virou-se, voltando a fechar os olhos e a dormir. Teve
medo, muito medo, ela era tão tranqüilamente linda: voz, olhar, sorriso e até a
pele. Ele lembrou-se da criança que não mais chorava, para tranqüilizar-se
novamente.
Acordou com as luzes de emergências
piscando: muito barulho, choros, gritos de criança, jovens, adultos e o avião
tremulando, uma voz orientando nervosamente para que todos abaixassem a cabeça
junto aos joelhos e tudo isso ele fez. Algumas coisas já estavam caindo dos
compartimentos de bagagens e os gritos continuavam. Um terror dominou aquele vôo
e não se podia fazer nada, ele novamente fez uma prece!
Foram poucos segundos, porém pareceram
eternos, como dizem sempre. Aos poucos as coisas foram se acalmando. Os gritos
e choros continuavam. O coração ainda acelerado. O avião estava estabilizado.
As luzes acesas e o piloto informando que haviam passado por uma tempestade que
não estava em nenhum registro. Faria um pouso de emergência para socorrer aos
feridos e ver possíveis avarias. Algumas pessoas precisariam de socorro médico,
muitas malas caíram sobre os passageiros. O violão estava ali, no chão
quebrado. Ia comentar isso com a vizinha, antes ajeitou o relógio em seu pulso,
era 00:02 minutos, virou-se para sua direita e não viu ninguém, entre ele e o passageiro
da poltrona 26f, da janela por onde ela havia olhado, lá estava só uma cadeira
vazia. Os pelos ficaram levemente arrepiados e o coração disparou simplesmente.
Abriu e fechou os olhos três vezes, procurou depois pelo chão ao seu redor e
nada.
As aeromoças, a cada poltrona, ajudavam
aos mais feridos e pediam auxilio aos que estavam bem. Assim foram colocando no
lugar as coisas que haviam caído. Ele chamou a que lhe dera as boas vindas e perguntou
pela passageira da poltrona 26e. Ela olhou para ele e o seu vizinho do 26f e
respondeu que ela fora a única passageira que não tinha embarcado, ele tinha
sido o último, dos dois que esperavam. Perguntou se ambos estavam bem e
continuou fechando os compartimentos abertos. Pegou no chão, no corredor ao seu
lado esquerdo, um pedaço de papel e o entregou a ele que instintivamente o segurou
e com dificuldades leu, pelo cabeçalho reconheceu ser uma página do A Menina
que Roubava Livros, mas o livro e nem a menina foram encontrados quando os
procurou.
O pouso no aeroporto mais próximo fora
muito tenso: bombeiros, ambulâncias, todo o aparato de socorro mobilizado.
Quando o avião aterrissou as portas de emergências foram acionadas e os
procedimentos de atendimento aos feridos foram realizados. Conversando, no
setor reservado aos feridos, sendo atendidos por médicos e enfermeiras, ouviu
falar de alguns mortos e outros gravemente feridos. Uma tristeza se
generalizou, todos se calaram.
Ouviu a palavra fatalidade e a expressão
triste experiência. Com certeza foi uma dura experiência para todos. O cheiro
do perfume e o som daquela voz ainda estão na sua memória, marcados para
sempre.
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