terça-feira, 17 de abril de 2012


A Última Chamada
Teddy Williams
Estava assim: cansado e ansioso. Uma nova jornada se iniciava.
Passara toda a manhã organizando sua primeira viagem do ano e essa seria para fora do estado. Na realidade já a estava organizando fazia 28 dias.
A manhã e a tarde foram corridos: aulas, reuniões, livros, discos, dvds e o carro do irmão que o deixara no aeroporto, já no fim da noite. Lá estava ele, antes de embarcar, bem depois do demorado chek in, morto de cansaço, uma hora adiantado no setor de embarque. No raio x passou o casaco, a aliança, a pulseira, sua mochila(com notebook, celulares e dvds), moedas e o inseparável violão.
Tudo em ordem! Pode passar, obrigado e boa viagem! - foi o que disseram.
Sentou-se, teria que esperar um pouco ainda antes do vôo ser anunciado. Estava marcado para as 22h. Antes das 01h da manhã já estaria em seu destino, no sul do país. Observou ao redor onde muitos também esperavam: uma criança sorria lindamente, um casal conversava, um bebê era alimentado por sua mãe, assistida por uma senhora, talvez a avó. Ao seu lado direito, olhou lenta e demoradamente, linda jovem com o notebook aberto em uma página sobre clima, estranhou, sabia que o tempo nesses dias estava bom em todo o Brasil. Sentiu seu perfume pelo ar e fechou os olhos por instantes. Em seguida, observou outro canto do salão de embarque, um grupo uniformizado conversava distraído fazendo barulho sobre o jogo da tarde.
Quando chamaram para o vôo quase todos se levantaram ao mesmo tempo, ele e ela resolveram continuar sentados – a fila ainda continuaria antes de entrarem no avião pensou consigo mesmo e fechou os olhos, sentindo novamente o perfume dela e adormecendo. Acordou assustado, coração acelerado, seu nome era chamado nos alto-falantes. Levantou-se e correu. Na correria do embarque havia esquecido o violão ao lado da cadeira na qual sentara. Imaginem vocês, um violão - sua mãe um dia disse: “não esquece a cabeça porque está em cima do corpo” e o violão bem ali a sua frente, fora do seu campo de visão, é claro, um erro em aeroportos. Voltou, sorriu e o pegou. Há tempos estavam juntos. Ambos se faziam companhia por essas viagens solitárias, às vezes. Chegou com o coração na boca próximo a porta de entrada do avião.
A sorridente aeromoça estava lhe esperando (na realidade todos estavam) e no ar o mesmo leve cheiro do perfume lhe voltou à memória. Ela lhe sorriu. Deu as boas vindas e desejou boa viagem. Ele continuou tentando encontrar aquela que vira ao seu lado, no salão de embarque, nas poltronas por onde passava. Mas não conseguiu.
Nos aeroportos dizem sempre que é a “última chamada”, chega a chatear: não quer entrar ou não pode, vai no próximo! Mas já deveriam o estar chamando fazia alguns minutos. Todos os olhares dos passageiros sentados lhe eram direcionados, quase em silêncio. Uma criança chorava compulsivamente. Ele sorriu para a criança, passando-lhe a mão por sobre os cabelos e ela foi silenciando, parando pouco a pouco – coincidência, ele pensou, feliz coincidência, pois o choro da criança o havia assustado logo na entrada em meio ao quase silêncio geral, ele agradeceu em uma prece.
Foi procurando a sua poltrona e logo a encontrou. Dois lugares vagos, 26d e 26e, as únicas poltronas vagas, de duas filas triplas e a sua era a “d”, no corredor. Sentou-se e sentiu-se mais calmo, assustara-se também com o ocorrido, ter dormido minutos antes de viajar. Para ele perder esse vôo seria desastroso. Acreditava que todo o seu trabalho estaria ligado àquela viagem, pensou como sempre pensava: o trabalho mais importante de todo o resto da vida.
Cintos apertados! Poltronas na posição vertical! O piloto dá as boas vindas, informando do fechamento das portas. Avião taxiando, informações de emergência e as luzes que não deixam a gente dormir. Lá iam todos! Força! Força! Pensava com os braços presos junto à cadeira. Pés firmes no chão, olhos cerrados e a sensação de estar subindo. Nesse instante os olhos pesaram, pesaram e se fecharam. Acordou com o comandante informando sobre o bom tempo na região e da hora que chegariam ao destino, às 00:37minutos. O lanche estava sendo servido. Observou na poltrona 26e, ao seu lado direito, a mesma linda jovem que estava com o notebook aberto no salão do aeroporto, havia pensado que era o último a ter entrado – talvez ela devesse ter ido ao banheiro, porém não a sentiu passando por seu lado para sentar-se. Teria ele levantado ainda dormindo? Ela sorriu, olhou para a janela vizinha e disse, com um timbre de voz quase recentemente escutada, tentou lembrar onde, ouvindo as palavras da sorridente vizinha:
- Uma grande tempestade está se aproximando, será uma dura experiência em nossas vidas, mas não tenha medo, tudo dará certo!
Observou seus olhos, sua pele, seus lábios. Seria uma boa oportunidade para conversarem e foi ela quem iniciou pensou dirigindo-se baixinho para falar-lhe:
- O piloto não havia falado em tempo bom em todo o percurso e vôo tranqüilo????... ficou sem respostas... Ela estava com um livro aberto “A Menina que Roubava Livros”, o corpo profundamente imerso na leitura. Sorriu sem jeito e virou-se, voltando a fechar os olhos e a dormir. Teve medo, muito medo, ela era tão tranqüilamente linda: voz, olhar, sorriso e até a pele. Ele lembrou-se da criança que não mais chorava, para tranqüilizar-se novamente.
Acordou com as luzes de emergências piscando: muito barulho, choros, gritos de criança, jovens, adultos e o avião tremulando, uma voz orientando nervosamente para que todos abaixassem a cabeça junto aos joelhos e tudo isso ele fez. Algumas coisas já estavam caindo dos compartimentos de bagagens e os gritos continuavam. Um terror dominou aquele vôo e não se podia fazer nada, ele novamente fez uma prece!
Foram poucos segundos, porém pareceram eternos, como dizem sempre. Aos poucos as coisas foram se acalmando. Os gritos e choros continuavam. O coração ainda acelerado. O avião estava estabilizado. As luzes acesas e o piloto informando que haviam passado por uma tempestade que não estava em nenhum registro. Faria um pouso de emergência para socorrer aos feridos e ver possíveis avarias. Algumas pessoas precisariam de socorro médico, muitas malas caíram sobre os passageiros. O violão estava ali, no chão quebrado. Ia comentar isso com a vizinha, antes ajeitou o relógio em seu pulso, era 00:02 minutos, virou-se para sua direita e não viu ninguém, entre ele e o passageiro da poltrona 26f, da janela por onde ela havia olhado, lá estava só uma cadeira vazia. Os pelos ficaram levemente arrepiados e o coração disparou simplesmente. Abriu e fechou os olhos três vezes, procurou depois pelo chão ao seu redor e nada.
As aeromoças, a cada poltrona, ajudavam aos mais feridos e pediam auxilio aos que estavam bem. Assim foram colocando no lugar as coisas que haviam caído. Ele chamou a que lhe dera as boas vindas e perguntou pela passageira da poltrona 26e. Ela olhou para ele e o seu vizinho do 26f e respondeu que ela fora a única passageira que não tinha embarcado, ele tinha sido o último, dos dois que esperavam. Perguntou se ambos estavam bem e continuou fechando os compartimentos abertos. Pegou no chão, no corredor ao seu lado esquerdo, um pedaço de papel e o entregou a ele que instintivamente o segurou e com dificuldades leu, pelo cabeçalho reconheceu ser uma página do A Menina que Roubava Livros, mas o livro e nem a menina foram encontrados quando os procurou.
O pouso no aeroporto mais próximo fora muito tenso: bombeiros, ambulâncias, todo o aparato de socorro mobilizado. Quando o avião aterrissou as portas de emergências foram acionadas e os procedimentos de atendimento aos feridos foram realizados. Conversando, no setor reservado aos feridos, sendo atendidos por médicos e enfermeiras, ouviu falar de alguns mortos e outros gravemente feridos. Uma tristeza se generalizou, todos se calaram.
Ouviu a palavra fatalidade e a expressão triste experiência. Com certeza foi uma dura experiência para todos. O cheiro do perfume e o som daquela voz ainda estão na sua memória, marcados para sempre.

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